Pulitzer vai para agência online de notícias

Divulgação
O staff do ProPublica faz festa para a ganhadora do Pulitzer, Sheri Fink. Sem fins lucrativos, a redação espera que o prêmio aumente as doações

“Roubem nossas histórias”

De como um site de conteúdo livre e uma médica que gosta de escrever ganharam o prêmio máximo do jornalismo

Por Carolina Rossetti

Quando chegou à sede da redação do ProPublica na terça-feira, Sheri Fink logo se deu conta de que aquele não seria um dia normal de trabalho. Ela mal aterrissara no 23º andar do prédio de esquina da Broadway com a Exchange Plaza, em Manhattan, e já era alvo de uma penca de pedidos de entrevista. Habituada ao ofício de repórter, sentia-se um tanto desconfortável naquela estranha inversão de papéis.

Na véspera, a Universidade Colúmbia, como em todo mês de abril desde 1917, havia anunciado os ganhadores da edição do mais importante prêmio da imprensa americana: o Pulitzer. Na lista dos vencedores de 2010 da categoria reportagem investigativa, a matéria premiada de Sheri chamou atenção pelo ineditismo. Foi a primeira vez que uma organização de mídia digital recebeu o prêmio batizado em homenagem ao editor Joseph Pulitzer, que no testamento deixou fundos para que Colúmbia laureasse exemplos de excelência na imprensa.

O Pulitzer de Sheri foi para a reportagem As Escolhas Mortais no Memorial, em que reconstrói o dilema da cirurgiã Anna Pou na manhã seguinte à destruição provocada pelo furacão Katrina em New Orleans. O Memorial Medical Center ficou cercado de água e a única escapatória era pelo heliponto. Feita a triagem, os pacientes com mais chances de sobreviver foram os primeiros a serem retirados. Para muitos dos doentes em estado mais grave, a espera pelo resgate seria fatal, avaliou a doutora Pou. Um ano depois do episódio, Anna Pou, com duas enfermeiras, acabaram presas. Anna foi acusada de mandar aplicar injeções de sedativos morfina e midazolam em 17 pacientes do hospital, causando a morte de pelo menos 4. Durante dois anos e meio, Sheri acompanhou o caso, que motivou intenso debate nos EUA sobre a ética dos profissionais da saúde durante desastres. Anna Pou foi absolvida por júri popular.

Sem copyright. O site não cobra nada para a publicação de suas reportagens. Foto: Reprodução

“Não podemos deixar que médicos sejam postos nessa situação”, diz a repórter de 41 anos, também formada em medicina pela Universidade Stanford. Tendo vivido situações de estresse semelhantes à da personagem central de sua matéria, Sheri tem ligação profunda com o tema. Durante anos alternou seu trabalho de jornalista free-lancer com o dos meses que integrava as tropas da organização humanitária International Medical Corps, na qual prestou serviços em Kosovo, Chechênia, Afeganistão e Iraque.

A decisão de se tornar jornalista veio no ano seguinte ao da graduação médica, em 1998, quando partiu para a Bósnia com a intenção de narrar a história de uma equipe de jovens médicos que, encurralados no fogo cruzado entre sérvios e bósnios, eram atormentados diariamente por decisões da mesma natureza moral da doutora Pou.

No hospital-bunker de Srebrenica, Sheri conheceu o cirurgião bósnio Nedret, que cruzava campos minados para atender os feridos que não conseguiam chegar ao hospital. Outro idealista, Eric, acreditava que os Médicos Sem Fronteiras poderiam impedir o genocídio de 8 mil bósnios. Suas histórias foram reunidas por Sheri durante cinco anos de pesquisa e resultaram na publicação, em 2003, de War Hospital: A True Story of Surgery and Survival, pelo qual ela recebeu o Special Book Award 2004 da Medical Writers Association. Sheri era exatamente o que procuravam os fundadores do ProPublica enquanto garimpavam os nomes para a equipe inicial do site.

Fundado em 2008, o ProPublica não tem fins lucrativos. O site surgiu da confluência de interesses do então editor-executivo do Wall Street Journal, Paul Steiger, que estava preocupado com o efeito da crise financeira da imprensa sobre a qualidade do jornalismo das grandes redações, e do casal de banqueiros da Califórnia Herbert e Marion Sandler, que desejava doar US$ 10 milhões para um projeto na área de mídia. Graças aos Sandlers, o site tem suas finanças garantidas até 2012. Outras fundações, como a MacArthur, Atlantic, John S. James e L. Knight, também são colaboradoras.

A ideia defendida por Steiger era a de que, em tempos de escassez financeira, os primeiros jornalistas a serem demitidos são os repórteres investigativos, que não produzem conteúdo diário e cujas matérias são as que saem mais caro. Steiger convidou, então, Stephen Engelberg, que em seus 18 anos de New York Times, tinha se especializado em coordenar reportagens investigativas de fôlego. Juntos, conceberam o ProPublica.

Com o objetivo de privilegiar reportagens de “clara importância moral” e claro interesse público, o ProPublica traz à luz histórias que revelam a exploração dos mais fracos e as falhas dos detentores do poder. “Para a democracia funcionar, precisamos de jornalismo de qualidade. É nisso que acreditamos”, diz Sheri, traduzindo o ideário dos demais 31 jornalistas que com ela fazem o site.

Outros dois repórteres do ProPublica também chegaram à final do Pulitzer, mas na categoria jornalismo de serviço público. Tracy Weber e Charles Ornstein investigaram as falhas do Estado de Indiana em adotar medidas disciplinares com cem enfermeiras acusadas de romper com a ética da profissão. Uma delas chegou a ameaçar uma colega de trabalho com uma faca e nada foi feito. Sobre o sucesso de seus profissionais, o editor Paul Steiger escreveu: “Este é o sinal de que nossa organização sem fins lucrativos pode fazer uma significativa contribuição para a necessidade de informação do povo americano em uma era de mudanças explosivas nos jornais”.

O futuro. O Pulitzer do ProPublica é crucial para mudar a forma como os publishers pensam o jornalismo, pois “as velhas maneiras já não funcionam”, acredita o americano Philip Meyer. Professor de jornalismo da Universidade da Carolina do Norte e autor de Os Jornais Podem Desaparecer?, ele dedicou a carreira ao desenvolvimento do jornalismo de apuração mais sofisticada, usando estatísticas e bancos de dados com informações públicas. Seu livro Precision Journalism, de 1973, foi o primeiro a idealizar reportagens produzidas com o auxílio de computador. Meyer preconiza que os jornais tendem para uma forma híbrida: “Ainda existirá o impresso, mas talvez apenas semanalmente; a maioria dos leitores optará pelo jornalismo online”.

Membro do conselho do site PatchNews, que cria jornais virtuais voltados para pequenas comunidades nos subúrbios, alimentados pelos próprios moradores, Meyer acredita que o futuro do jornalismo passará inevitavelmente pelo trabalho do “repórter-cidadão”. Esse garimpeiro de informações é “o cara no café com seu laptop”, descreve ele. “O repórter-cidadão faz isso pelo bem da comunidade, mas também porque acha divertido e porque quer poder.” No entanto, precisam ser supervisionados por jornalistas profissionais, que filtram o conteúdo dos veículos virtuais.

O Patch só contrata jornalistas com diploma. “Veja que ainda há empresas que pensam dessa maneira”, diz Meyer. Para ele, no entanto, não há necessidade de graduação em jornalismo e a melhor maneira de fortalecer a categoria é por meio de associações profissionais independentes, que determinem um sistema próprio de certificação. Os jornalistas terão de ser bons não só em jornalismo, acredita o professor. Seguindo o exemplo de Sheri Fink, eles terão de ser pessoas especializadas nas áreas em que desejem atuar, sendo também médicos, engenheiros, cientistas políticos.

Conteúdo livre. Além de sair no ProPublica, a matéria de Sheri foi publicada na edição de agosto de 2009 da New York Magazine. Pelo caráter não lucrativo do site, veículos que queiram usar seu material podem fazê-lo sem pagar nada por isso. “Roubem nossas histórias”, sugere o site. As matérias são licenciadas pelo modelo contratual do Creative Commons, permitindo o compartilhamento gratuito do conteúdo, desde que com o devido crédito. O site trabalha com cerca de 50 parceiros, entre eles The New York Times, The Washigton Post, USA Today, 60 Minutes e Los Angeles Times.

“Grandes jornais estão desesperados por investigação de qualidade, mas não querem pagar por isso”, diz Meyer. “O ProPublica usa o meio tradicional de mídia porque lhe dá maior credibilidade”, finaliza. “Se alguém tinha dúvidas sobre nós, agora elas foram apagadas”, comemora o diretor de comunicações, Mike Webb, contando como o Pulitzer de Sheri teve um efeito positivo sobre a redação e deve facilitar as arrecadações de fundos de agora em diante.

(Essa reportagem foi publicada no caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo em 17 de abril de 2010)

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