Filósofo Marshall Berman discute atentado no Times Square

E o mundo em neon caiu na real

Atentado e risco permanente não podem inibir o prazer de ‘possuir a cidade’, diz o grande perito em Times Square

Por Carolina Rossetti

Marshall Berman, autor de 'Tudo o que é sólido desmancha no ar'

Parte do fascínio do filósofo americano Marshall Berman por Times Square nasce do próprio interesse em desvendar o cenário onde se deu o primeiro ato do mito fundador de sua família. Foi ali que, certa noite, na convergência da Rua 42, Sétima Avenida e Broadway, sua mãe não resistiu aos impulsos de “boa menina” e aceitou o convite para sair com um colega de trabalho de quem admitiu, mais tarde, não gostar muito e, por vezes, até desdenhar. Ele lhe pagou o jantar. Juntos, caminharam sob as luzes. Mesmo depois de casados e já com filhos, toda vez que os pais de Marshall Berman queriam agir como amantes “a Square era o lugar aonde iam”, recorda o nova-iorquino nascido no Bronx em seu livro Um século em Nova York – Espetáculos em Times Square, em que narra os cem anos de histórias e personagens que deixaram sua marca no quadrilátero feérico que considera ser o coração de Manhattan.

Mas, não fosse o sentido aguçado de um vendedor ambulante e também veterano do Vietnã, Lance Orton, ao alertar a polícia de que uma velha Nissan Pathfinder cheirava a pólvora, é possível que o paquistanês naturalizado norte-americano Faisal Shahzad tivesse conseguido explodir esse refúgio cosmopolita para onde se dirigem os nova-iorquinos que desejam se entregar às paixões. E justo num sábado à noite.

Shahzad falhou, mas bem poderia ter levado a termo seu plano hediondo, bastando caprichar um pouco mais nas conexões rudimentares de artefatos explosivos. O fato é que não há como se proteger dos atos insanos de terrorismo, pois a insegurança, ela própria, tornou-se marca fundamental da vida do homem moderno, garante Berman, professor de teoria política e urbanismo na City University, em Nova York, e autor também de Tudo o que é Sólido Desmancha no Ar. “Ser nova-iorquino é ter sua identidade delineada pelo orgulho de sobreviver às calamidades”, diz, reconhecendo ao mesmo tempo que a vida na cidade anda mais segura, especialmente depois do 11 de setembro de 2001. Mas o que fazer diante de atentados como o da semana passada? Para Berman, só cabe aos cidadãos resistir ao medo, para que não venham a abrir mão do direito primordial de possuir a cidade. “O jeito é reunir as pessoas e estar nos lugares, ocupando os espaços, não nos deixando intimidar”, ensina o filósofo. E o exemplo vem dele: na entrevista que se segue, reafirma seu otimismo quanto aos rumos da sociedade americana e credita esse estado de espírito ao presidente Barack Obama, com quem admite ainda viver em “lua de mel”, apesar dos críticos.

O que significa Times Square para os nova-iorquinos?

Existem certos ícones em Nova York com os quais as pessoas se relacionam de forma intensa. Times Square é um deles, como são a Ponte do Brooklin, o Central Park, a Estátua da Liberdade e o edifício Empire State. As pessoas podem sentir esses lugares a quilômetros de distância e isso ajuda a suportar os dias difíceis. Minha mãe costumava dizer: “Vamos tomar um banho de luz em Times Square”. Não há outro lugar na cidade que faça você se sentir assim. Ali, você é embebido em luz numa explosão incrível. Vai-se à Square para ver os anúncios, pegar um teatro, olhar as mulheres. Times Square sempre teve uma aura punk. Não é esnobe, é barata e original. Meu lugar preferido é a vista da Rua 42, olhando para o norte. A praça se abre para você e se veem milhões de pessoas seguindo seu caminho. A primeira coisa que salta aos olhos é o anuncio da Coca-Cola, que se desintegra e se recompõe. Assim é também Times Square – um lugar complexo e diverso e o mais integrado da cidade. É o espaço mais multinacional de Nova York, cuja demografia é igual à das Nações Unidas. Times Square é amada em todo o mundo.

O recente atentado não o faz rever essa visão meio idílica?

Por que as coisas seriam menos amadas se estão em perigo? Isso não seria uma razão para amar a cidade ainda mais? Se você se identifica minimamente com Nova York, essa é a hora de olhar por ela. Nesse caso, foi uma catástrofe que não aconteceu e as pessoas estão aliviadas por isso, mas é sempre possível que ocorra um desastre. O fato de Nova York ser um lugar espetacular a torna particularmente atraente para pessoas mal-intencionadas. O interessante é que o World Trade Center sempre foi o edifício mais odiado pelos nova-iorquinos. No entanto, o 11 de Setembro foi um tremendo espetáculo e por isso os terroristas o arquitetaram.

Existe um medo latente de que na próxima vez pode não se ter tanta sorte?

Viver em Nova York é sentir que estamos constantemente sob pressão, as coisas sempre podem dar errado. Não tenho certeza de quando surgiu esse sentimento, mas no final da 2º Guerra Mundial, quando eu tinha 3 anos, lembro muito bem dos blecautes. Já existia o medo de bombas e catástrofes e os blecautes serviam para evitar que os inimigos localizassem a cidade. Tenho esses blecautes em minha mente. Lembravam às pessoas que em qualquer momento você poderia ser o próximo alvo. Mas me recordo também que depois de quatro anos sem luz, a Square reacendeu. Havia uma sensação de excitação no ar e as pessoas podiam abraçar completos estranhos porque havia luz, depois de tempos de apreensão e ansiedade. As duas pessoas mais famosas da Times Square são anônimas. Um marinheiro e uma enfermeira se beijando no dia da rendição do Japão e do fim da 2º Guerra Mundial, em 15 de agosto de 1945. A foto de Alfred Eisenstaedt traduz um momento de alegria coletiva, em que toda a sociedade pôde se unir novamente. As luzes eram um sinal de que você podia relaxar um pouco.

E hoje em dia, as luzes estão acesas ou apagadas?

Não vivemos um blecaute, mas sinto que somos um alvo. Somos um alvo há muito tempo. Em 2001, não tivemos sorte e tudo que os terroristas tentaram fazer deu certo. Mas o que aconteceu na semana passada é mais típico porque as tentativas dos terroristas costumam falhar. Por outro lado, o próximo pode funcionar. A cidade não iria acabar, mas ia ser o fim para algumas pessoas e isso é terrível.

Símbolos do poderio americano entraram em colapso. Houve o atentado às Torres Gêmeas e ao Pentágono. Em outra esfera, houve a crise econômica, a falência de instituições financeiras importantes e do estilo de vida de Wall Street. Qual o impacto disso tudo para a autoestima da nação?

Nossa autoestima vem da capacidade de resistir às dificuldades na vida. Acho que ninguém pensa que a autoestima americana venha do fato de não haver nada de errado acontecendo. Alguém que pensasse assim não viria para um lugar como Nova York, por exemplo, porque aqui sempre há muitas coisas que podem dar errado e dão. Basicamente, ser nova-iorquino é ter sua identidade delineada pelo orgulho de sobreviver às calamidades.

O senhor diz em seu livro que um dos direitos humanos básicos é o direito à cidade. De que forma o medo de futuros atentados altera a maneira como pessoas se relacionam com a cidade?

Isso interfere com nosso direito à cidade, nosso direito de possuir a cidade. Temos que resistir a isso. Precisamos entender que a maneira de estabelecer esse direito é reunir as pessoas e estar nos lugares, ocupando os espaços e não nos deixando intimidar. Nunca foi possível estar completamente seguro. Joseph Conrad escreveu um livro há mais de cem anos sobre um homem que explode uma bomba em um ônibus em Londres e mata dezenas de pessoas. Atos estúpidos e sem significado fazem parte da vida moderna e não há como se proteger de toda a loucura a nosso redor. Existe uma tendência de sempre se olhar por cima do ombro, esperando o pior e você só fica feliz quando nada de ruim acontece. A vida não é assim. A rotina em Times Square já voltou ao normal. As pessoas estão tentando viver.

O que o senhor acha da política de combate ao terrorismo de Obama?

Acho que as bases das instituições de combate ao terrorismo foram estabelecidas nos anos 90. Elas são boas e bem equipadas, mas sempre algo pode dar errado. Milhares de carros passam por Times Square, qualquer um deles pode ter uma bomba instalada. Garantias não há. Nem em Nova York, nem em nenhum lugar.

O senhor votou em Obama?

Sim. Estou feliz de que ele tenha conseguido passar a reforma da saúde, apesar de não ser tão progressista quanto eu gostaria. O programa de estímulo econômico também foi muito bom, mais pessoas estão sendo empregadas. Guantánamo continua lá, mas já tiraram a maioria dos presos, o que acho certo. Admito que ainda estou na lua de mel com Obama porque durante oito anos fomos afligidos por pessoas ignorantes. Você sabe o que é sentir que seu país é governado por pessoas malevolentes? Bush era muito tímido para ser um fascista e lhe faltava um exército particular, só. Nem sequer foi eleito, roubou a eleição. Isso foi profundamente perturbador para as pessoas, pensar que nossa democracia pudesse ser diminuída dessa maneira. É bom sentir que nossos líderes são pessoas inteligentes e decentes. Nunca em minha vida me senti assim sobre nenhum líder político. Bom, talvez, Lyndon Johnson, mas durou apenas dois minutos. Nunca me senti assim com Kennedy, apesar de ter amigos que se apaixonaram por Jack e Jackie e seus gestos imperiais. Sinto que Obama basicamente quer a coisa certa e faz muito tempo que não temos um presidente assim. Ele um alívio.

E a presença americana no Iraque?

Não parece muito frutífera, nunca foi. É um grande erro, temos que sair de lá. Quando era candidato, Obama tinha esse discurso. Dizia que deveríamos ter uma estratégia de saída. Uma das coisas que deu errado no Vietnã foi que não tínhamos uma estratégia de saída, não havia formas fáceis de recuar. Por isso foi um dos maiores desastres militares americanos. Espero que o Iraque não esteja nesse caminho.

O que o senhor pensa do Tea Party?

Vai permanecer marginal. Mas, veja, o pensamento conservador radical foi muito influente em todo o século 20. Os nazistas eram pensadores radicais conservadores. O Tea Party é de uma profunda imbecilidade, mas isso nunca impediu nenhum movimento de ser bem-sucedido.

O idealizador do atentado da Times Square é paquistanês. Isso pode estimular sentimentos de xenofobia e discriminação?

Acho que não. As pessoas que têm ódio étnico já o têm e não será esse evento que vai levá-las a isso. Depois do 11 de Setembro existia o temor de que houvesse retaliações em bairros árabes. Mas o que se viu nas regiões de maior concentração de árabes em Nova York, perto da Atlantic Avenue, no Brooklin, foram muitas demonstrações de solidariedade com árabes que moram lá. Eu tive muito orgulho disso.

(Essa entrevista foi publicada no caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo em 9 de maio de 2010)

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