A vida das mulheres-bomba

Crédito: Hamas/Reuters
Acorbertada pelo véu, Reem al-Reyashi intimidou a revista na fronteira; deixou dois filhos órfãos e um marido orgulhoso

O preço do paraíso

Vingança, depressão, um marido perfeito na eternidade. Em diários, mulheres-bomba contam por que optaram pela roupa do suicídio

Por Carolina Rossetti

Khava queria vingar o marido. Tinha 22 anos e um coronel russo acabara de fazer dela uma viúva. Com a ajuda da amiga Kheda, empilhou explosivos na traseira de sua caminhonete e dirigiu até o conjunto habitacional onde dormia o Exército russo, no vilarejo de Alkhan-Khala, nove quilômetros ao sul da capital chechena, Grozny. Guardas da força especial russa abriram fogo contra o veículo quando perceberam que não havia menção de ele desacelerar. Khava não se intimidou e pisou fundo. Vinte e sete russos morreram, entre eles o coronel responsável pela tortura e assassinato de seu marido. “Sei o que faço”, teria dito ela antes de iniciar a missão. “Só espero que esse preço me garanta o paraíso.”

Em junho o atentado de Khava Barayeva fará dez anos. Ela é celebrada como a primeira das “viúvas-negras”, como são conhecidas as mulheres-bomba da insurgência chechena. Elas são responsáveis por 65% de todos os ataques à bomba, o que alimenta um sentimento de castração entre os chechenos explícito num ditado local: “A coragem da mulher é a desgraça do homem moderno”.

A Khava seguiu-se uma legião de filhas do Cáucaso. As duas mais recentes – Dzhannet, de 17 anos, e Markha, de 20 – foram manchete nos noticiários da semana ao se explodirem no metrô de Moscou, deixando 40 mortos e mais de 90 feridos espalhados pelas estações centrais de Lubyanka e Park Kultury. Mas chamá-las de viúvas é imprecisão. Algumas, com pouco mais de 15 anos, nem tempo de noivar tiveram.

Pelos diários e cartas de algumas dessas garotas chechenas resgatados para sua pesquisa, a cientista política Mia Bloom, que dá aula sobre terrorismo na Universidade Penn State, no Estado americano da Pensilvânia, concluiu: muitas delas são duramente pressionadas por familiares para se sacrificarem por seu povo. “Basicamente, o que vem sendo dito a elas é: “Você tem mais valor morta do que jamais teria em vida””, explica Mia. Ela prepara um segundo livro sobre o tema, a ser publicado pela filial canadense da Penguin Co. em janeiro de 2011 sob o título Bombshell. O primeiro, Dying to Kill: The Allure of Suicide Terror, saiu em 2005.

“A chechena vive entre a cruz e a espada. Se por um lado é coagida por seu povo, por outro é assediada pelo Exército russo.” O Kremlin passou uma ordem, em julho de 2003, instruindo a polícia de fronteira a revistar toda mulher coberta com véu. “Quando detidas pelos policiais, elas são torturadas e muitas vezes estupradas”, diz Mia. Os estupros acabam engrossando as fileiras de candidatas a mártir, pois, uma vez “danificadas”, a saída para muitas é o suicídio.

Aliciadora

Samira Ahmed Jassim usava essa desonra das mulheres a seu favor. Aos 51 anos, ela foi presa em fevereiro do ano passado por arquitetar o estupro de 80 iraquianas da Província de Diyala. Imprestáveis para o casamento, elas eram recrutadas por Samira para se tornarem sahidas, a palavra árabe para a mulher mártir. Sabe-se das 80, 36 enrolaram explosivos em seus corpos. Dessas, 32 se explodiram.

Quando capturada, Samira confessou que nem todas aceitavam facilmente o destino que ela lhes propunha. Uma viúva mais velha custou-lhe várias visitas até que decidisse se explodir em um ponto de ônibus. Outra, uma professora, tomou-lhe 15 dias de trabalho. “Eu a convenci de que ela estava em uma situação ruim. Então a levei para ver meus contatos”, explica em um vídeo postado na internet. A professora foi responsável pela morte de um grupo sunita ligado ao governo de Diyala.

Cobertas de pano grosso e escuro, as muçulmanas estão protegidas da curiosidade dos homens. Os guardas são culturalmente proibidos de revistá-las. “O corpo da muçulmana não pode ser tocado nem olhado, o que o torna uma arma excelente”, diz Mia.

Convencida pelo marido – e pelo amante

Reem al-Reyashi tinha dificuldade em convencer os guardas israelenses do posto de entrada no bairro industrial de Erez, na fronteira de Israel com a Faixa de Gaza, de que estava doente e precisava entrar em Israel para receber cuidados médicos. Naquele 14 de janeiro de 2004 não havia nenhuma mulher soldado de prontidão para revistar suas camadas de pano. Desconcertados, os guardas israelenses debatiam entre eles o que fazer. O detector de metais acusava um objeto estranho e Reem, aos poucos, os convencia de que era um pino numa perna fraturada. Deixaram que esperasse no prédio a chegada de uma policial.

Sob as vestes, Reem acionou o comando que deixaria seus dois filhos órfãos e seu marido orgulhoso. Levou consigo quatro soldados israelenses e feriu mais de dez. Reem, palestina de 20 anos, havia caído em desgraça por se envolver com um amante. Pelo adultério, pagaria com a vida. Tanto marido quanto amante a convenceram de que se explodir era o mais certo a fazer.

Acredita-se que Alá conceda passe livre para o reino dos céus a seus mártires e 70 familiares deles, independentemente do comportamento que tenham tido em vida. “As pessoas gostam de falar das 72 virgens a que os mártires homens têm direito. É mais sexy”, comenta Mia Bloom. E as mulheres, o que ganham? “A elas é prometido o marido perfeito para toda a eternidade”, explica Mia, que ao notar o pouco entusiasmo da repórter com a resposta, foi ainda mais fundo: “E nada garante que não seja o mesmo marido que teve em vida. Pode ser que você não ganhe um upgrade”. A outra possibilidade é que, uma vez mártir, a mulher se torne uma “rainha das virgens” do harém celeste.

Em seu primeiro livro, Mia Bloom estudou o uso de atentados suicidas nas principais organizações que utilizam essa estratégia, como os Tigres Tâmeis, no Sri Lanka, o Hezbollah, no Líbano, e o PKK (sigla em inglês para Partido dos Trabalhadores do Curdistão), na Turquia, além dos chechenos e palestinos. Atentados suicidas nunca foram a primeira opção de nenhum deles. “O que aciona o gatilho é a frustração dos líderes da guerrilha ao perceber que outros meios de lidar com o conflito não funcionaram”, diz Mia. Quando as tentativas de negociação falham e as ações de contraterrorismo afetam de forma intensa a população civil, reina a filosofia do “se nossos civis não estão seguros, os seus também não estarão”.

Dia de plantão

Wafa Idris morava no campo de refugiados Al-Amaari, perto de Ramallah, na Cisjordânia. Divorciada aos 26 anos, a enfermeira não tinha muito pelo que viver. Por duas vezes fora atingida por balas de borracha das forças israelenses enquanto atendia palestinos feridos, o que só fez alimentar sua depressão. Num domingo, saiu de casa e avisou a mãe que era seu dia de plantão na sede do Crescente Vermelho (a Cruz Vermelha islâmica). Pediu uma hora de folga ao chefe, pois tinha “uma coisa importante a fazer”. Seguiu para o centro de Jerusalém Ocidental à procura de uma rua movimentada e explodiu sua bomba, matando um homem de 81 anos e ferindo outras 149 pessoas.

Cerca de 3 mil acompanharam seu enterro. Na época, a polícia israelense comunicou que a morte de Wafa tinha sido acidental. O plano dela era deixar a bomba e sair, mas algo deu errado. Para os palestinos, essa versão é falsa e Wafa é lembrada como a primeira heroína da intifada.

Com a morte de Wafa, floresceu entre a resistência palestina o debate sobre o uso de mulheres em atentados. “É uma questão geracional”, analisa Mia, que percebe entre os novos líderes da jihad uma posição mais favorável ao alistamento de mulheres-bomba. A Al-Qaeda chegou com atraso ao jogo por conta de uma desavença entre Bin Laden, que não queria ver mulheres ativas no conflito, e Zarqawi, chefe da Al Qaeda no Iraque, para quem elas eram muito eficientes.

Frio no estômago

Zarema Muzhikhoyeva andava hesitante por uma das principais vias de Moscou, a Rua Tverskaya, quando uma sensação esquisita no estômago aconselhou-a a desistir do intento. Ela se entregou à polícia e confessou ter sido recrutada pelos rebeldes chechenos para ser uma mulher-bomba em troca de US$ 1 mil destinados a parentes como compensação por joias que havia roubado. Pegou 20 anos de prisão. Incrédula, cuspiu para o juiz: “Agora sei por que todos odeiam os russos”, acrescentando que voltaria para explodir todos.

Na prisão de Sherut Batei HaSohar em Israel estão encarceradas 112 mulheres que, ou desistiram na última hora, ou foram pegas antes de executar a tarefa ou simplesmente portavam bombas que não funcionaram. “Eis o problema de tratar todas da mesma maneira: você não dá oportunidade às que possam mudar de ideia. Uma vez que tenham usado um cinto-bomba, são culpadas”, reclama Mia.

Uma das medidas mais inteligentes para combater o terrorismo, em sua opinião, seria criar uma escala de atenuantes que permitisse uma saída àquelas que foram coagidas a entrar no movimento. “Não temos terror de primeiro, segundo ou terceiro grau, mas deveríamos.” Outro problema seriam as leis contra o uso da burca em andamento na França, Bélgica e Canadá. A proibição contribuiria para uma nova leva de mulheres-bomba. “Ninguém fez essa conexão ainda, mas é o que se comenta em sites jihadistas. Muitas pessoas estão insatisfeitas”, alerta.

(Esta reportagem foi publicada no caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de abril de 2010)

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